Benfica de José Mourinho: Estatísticas Consistentes, Futebol Pouco Convincente
Técnico retorna aos encarnados após duas décadas. Porém, ainda há muito o que fazer
O retorno de José Mourinho ao Benfica era aguardado com entusiasmo e curiosidade. Mais de duas décadas após a sua primeira passagem, o treinador assumiu novamente o comando dos encarnados, cercado de expectativa por parte da torcida e da imprensa. No entanto, as três primeiras partidas sob sua direção não trouxeram a confirmação de um projeto convincente.
Embora os números indiquem uma equipe competitiva e consistente em métricas avançadas, a realidade em campo revela um futebol que ainda não empolga. A vitória contra o AVS Futebol SAD, o empate diante do Rio Ave e a derrota frente ao Gil Vicente trouxeram lições importantes sobre os caminhos e as fragilidades desta nova era.
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Contexto da temporada: posição sólida, desempenho questionado
Com sete rodadas disputadas, o Benfica soma 17 pontos e ocupa a 3ª posição na tabela da Primeira Liga, apenas um ponto atrás de Sporting e Porto. Os indicadores analíticos colocam a equipe em boa posição:
No gráfico de xG Open Play por 100 passes, o Benfica aparece em patamar satisfatório.
Na relação entre porcentagem de passes no campo adversário e saldo de xG, os encarnados também mantêm números positivos.
Em teoria, trata-se de uma equipe competitiva, dentro da briga pelo título. Na prática, porém, o jogo apresentado em campo está longe de ser convincente. A percepção da arquibancada é de insatisfação: o Benfica tem obrigação de impor-se frente à maioria dos rivais e não pode se contentar com desempenhos apenas “satisfatórios”.
Passes no campo adversário: controle sem agressividade
Em todas as três partidas sob Mourinho, o Benfica manteve elevada presença no campo ofensivo, trocando passes e ocupando território. Esse padrão é uma marca clara da proposta do treinador.
Contra o AVS Futebol SAD, a vitória por 3 a 0 foi menos fruto de imposição encarnada e mais consequência da fragilidade do adversário. Até os 70 minutos, o xT era equilibrado.
Diante do Rio Ave, o Benfica acumulou um xT muito superior, mas só conseguiu marcar no fim, sofrendo o empate logo em seguida.
Contra o Gil Vicente, o cenário se inverteu: o Benfica gerou menos ameaça que o adversário, mostrando incapacidade de transformar posse em perigo real.
Esse padrão expõe uma contradição: a equipe propõe o jogo e domina território, mas não converte esse domínio em controle real das partidas.
Zagueiros como condutores principais: sinal de desequilíbrio
Um aspecto recorrente nas três partidas é o protagonismo dos zagueiros na construção ofensiva. Otamendi e António Silva aparecem frequentemente como jogadores de maior load centrality, ou seja, concentram a circulação da bola e são responsáveis por iniciar a progressão.
Esse dado revela uma estrutura sólida na saída de bola, mas também um desequilíbrio: a equipe carece de médios criativos assumindo esse papel.
Contra o AVS, Richard Ríos conseguiu algum destaque no fluxo.
Contra o Rio Ave, foi o lateral Amar Dedic quem ganhou peso.
Já contra o Gil Vicente, chamou atenção o fato de Vangelis Pavlidis, centroavante, aparecer como principal pivô, conectando jogadas sem oferecer movimentos de ruptura.
Essa dependência de zagueiros e de um centroavante fixo reforça a previsibilidade ofensiva. O Benfica circula a bola, mas não encontra variedade ou espontaneidade criativa.
A ausência de pressão alta: uma escolha ou limitação?
Outro padrão que salta aos olhos é a falta de pressão alta consistente. Em pelo menos duas partidas (AVS e Gil Vicente), os goleiros adversários receberam passes médios e longos com liberdade, sem serem sufocados pela marcação encarnada.
Esse comportamento indica preferência por um bloco médio, mais seguro, mas também menos agressivo. O custo é evidente: quando o Benfica não pressiona a saída de bola, permite que adversários com menos recursos consigam iniciar jogadas com tranquilidade.
No contexto do futebol português, em que a superioridade técnica deveria se impor, essa ausência de pressão é um fator que reduz o impacto do volume de posse no campo ofensivo.
Verticalidade e estagnação: duas faces do mesmo problema
A análise das três partidas também revela oscilações na forma de circulação:
Contra o Rio Ave, a tendência foi de passes verticais, buscando acelerar a chegada ao ataque.
Frente ao AVS, a equipe priorizou curtos passes de aproximação, valorizando a posse.
Já contra o Gil Vicente, a circulação ficou excessivamente presa entre os zagueiros, sem progressão.
Esses contrastes mostram que Mourinho ainda não encontrou o equilíbrio entre objetividade e controle. Em nenhum dos estilos, porém, o Benfica foi convincente: ora faltou clareza nas rupturas, ora sobrou estagnação.
Padrões recorrentes: um resumo preocupante
Das três primeiras partidas, emergem três padrões claros:
Volume territorial alto sem conversão em eficácia ofensiva.
Protagonismo excessivo de zagueiros e pivôs, em detrimento de médios criativos.
Ausência de pressão alta que reduz a capacidade de sufocar rivais.
Entre dados e arquibancada: duas leituras do mesmo time
As estatísticas avançadas mostram que o Benfica está competitivo, dentro da disputa pelo título. Mas a leitura da arquibancada é bem diferente: um time previsível, pouco agressivo e incapaz de se impor contra adversários de menor expressão.
Esse contraste entre números e percepção é um dos maiores desafios para Mourinho. Para o torcedor, estar dentro da briga não basta. O que se espera é um futebol de imposição, que reflita a grandeza do clube e sua tradição vitoriosa.
O que Mourinho precisa ajustar
Para transformar estatísticas positivas em autoridade real, Mourinho terá de promover ajustes:
Diversificação ofensiva: criar mecanismos que envolvam médios e extremos na construção, reduzindo a dependência de zagueiros.
Exploração da profundidade: estimular movimentos de ruptura, sobretudo quando Pavlidis atua como pivô fixo.
Definição clara da pressão alta: se será parte estrutural da identidade ou recurso eventual. Hoje, a ausência desse comportamento limita o time.
Equilíbrio na circulação: evitar tanto a pressa vertical quanto a estagnação lateral, encontrando uma cadência que combine objetividade e controle.
Esses passos podem levar o Benfica de Mourinho de uma equipe “satisfatória” a uma formação dominante e convincente.
Conclusão: um Benfica que ainda não empolga
As primeiras partidas sob José Mourinho deixam claro: o Benfica não foi convincente em nenhum momento. A equipe ocupa boa posição na tabela, apresenta números sólidos, mas não traduz esse desempenho em superioridade clara dentro de campo.
Para uma torcida exigente e acostumada a conquistas, isso está longe de ser suficiente. Mourinho terá de transformar consistência estatística em futebol de autoridade se quiser alinhar resultados, dados e expectativas.
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